Com a ultra especialização da economia, ao longo de muitos anos o nosso vínculo e a nossa percepção do meio foi alterada. Somente em idade já avançada, a maioria das crianças vai compreender de onde vem aquela fruta que chegou até o seu prato. Não é mais de nossa natureza entender como funcionam os ecossistemas e não percebemos as suas alterações, em pequena ou grande escala. Nós apenas presenciamos os diversos impactos. São secas, enchentes e diversos outros tipos de eventos que ocorrem em frequência e escalas crescentes.  

Com esta perda de percepção também não compreendemos qual é nossa conexão com os outros moradores do planeta. Por que salvar o urso polar? Por que se preocupar com a seca rigorosa que afeta os moradores de outros estados? Afinal, por que precisamos nos preocupar com a temperatura do planeta? A verdade é que estamos todos conectados, as pessoas e os ecossistemas, vivemos em um único planeta. O que provocamos de impacto ambiental negativo em nossa região, não irá apenas nos afetar, mas será percebido também em outras regiões e nações. E afinal, a terra é a nossa casa, precisamos dela para viver.

Na verdade precisamos correr para salvar a espécie humana, não é o planeta que está em risco! As alterações estão acontecendo em uma velocidade muito maior do que seremos capazes de nos adaptar. Com uma mudança drástica em sua natureza, outras formas de vida surgirão no planeta, certamente muito menos diversa do que já tivemos no passado. Segundo um estudo divulgado no jornal The Guardian*,  atualmente, os humanos representam apenas 0.01% da biomassa de toda a vida no planeta, mas os humanos já destruíram 83% do mamíferos selvagens.

E a moda…o que tem a ver com tudo isto? Vestir-se é uma forma de expressão antiga e faz parte da nossa cultura e de nossa necessidade cotidiana. A indústria têxtil é uma das grandes poluidoras. Nas várias etapas do seu processo produtivo e até mesmo no descarte do produto têxtil, são identificados diversos impactos sociais e ambientais negativos. A produção do algodão convencional, por exemplo, é extremamente delicada e demanda grandes volumes de pesticidas, que contaminam o solo, os cursos de agua e são extremamente nocivos para quem os manuseia.

Por outro lado, esta mesma indústria que tem externalidades desastrosas, emprega globalmente 300 milhões de pessoas**.  O processo de produção têxtil ainda é muito manual, por isso, existe aí uma grande oportunidade de transformar esta indústria e gerar impacto positivo.  Claro, nosso consumo também precisará ser repensado. Se os recursos do planeta são finitos, o nosso consumo e a produção industrial também precisam encontrar novos caminhos. Caminhos circulares, que identifiquem matérias-primas, processos produtivos e modelos de comercialização, que garantam vida longa e a reutilização dos materiais. Afinal, nós não consumimos o produto têxtil, como fazemos com os alimentos. Somos apenas usuários!

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Fontes:
*The Guardian, 2018.  Humans just 0.01% of all life but have destrotyed 83% of wild mammals – study.
**Ellen MacArthur Foundation, 2017. A new textile economy: redesigning fashion’s future.

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Por Beatriz Duarte
Beatriz é co-fundadora da utopiar. Movida pelo desafio de criar soluções inovadoras que geram valor compartilhado, se especializou em Management pela University of Otago School of Business, Nova Zelândia e realizou o Master em Gestão da Sustentabilidade pela FGV-SP.

 

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