Mulheres que contam suas histórias - Rosa Vermelha – utopiar

Mulheres que contam suas histórias - Rosa Vermelha

Deborah: O que você faz de diferente no seu dia a dia?

Rosa Vermelha: Bom, hoje eu estou desempregada né. Então, com o desemprego eu tive que me reinventar. E aí eu faço doces, eu faço aromatizador, eu faço meus bordados, que até então, meus bordados eram para presente, e pra mim foi uma grande dificuldade ter que olhar para os bordados como venda, né, como comercialização. Sendo que aquilo ali era só doação de amor, vamos dizer assim. Mas, graças à Deus, está indo. De pouquinho em pouquinho está indo sabe, então, acho que a parte pior já foi. Acho que vai fazer sete meses que eu estou desempregada, então assim, os cinco primeiros meses acho que foram os mais difíceis, mas agora eu estou tentando me adaptar e buscando alguma coisa sabe, é mais é isso.

Deborah: E o que que te inspira? O que que deixa você inspirada? No seu dia a dia, ou qualquer coisa que faz você ficar assim, animada, inspirada?

Rosa Vermelha: Eu acho que é acreditar que coisas boas vão vir, sabe. Por mais que eu tenha minha filha que está crescendo, é acreditar em mim, que eu posso conseguir algo melhor. Independente do que seja, eu posso conseguir algo melhor. Então é isso que faz eu acordar e acreditar que o outro dia vai ser melhor. E é engraçado porque tudo a gente faz, a gente começa a olhar as coisas, depois da dificuldade, você começa a olhar assim, é um dia de cada vez. Não adianta eu querer me desesperar e querer que as coisas aconteçam de uma hora para a outra, é um dia de cada vez. Se eu conseguir ficar feliz hoje do início ao fim do dia, ganhei o dia. E amanhã vai ser mais um, sabe? Não deixar, não deixar cair. Acho que é bem isso nesse momento.

Deborah: E o que que você mais tem gostado aqui na sua experiência na utopiar?

Rosa Vermelha: Eu acho que entra valorização, né. E entra naquilo que eu falei, não é valorizar… é a valorização de pessoas, né, de indivíduos, independente dela, independente de classe social, independente da experiência, da vida, mas é valorizar o ser como individual mesmo, e o valorizar a tua arte, valorizar o que você faz. Por mais simples que seja, valoriza, entendeu. Não deixa de dar valor. Você pode não cobrar horrores, mas dê valor, que cobre o valor que você cobre naquele trabalho. Então é bem isso, e é o que eu falo, se antes eu fazia as coisas para doar, eu fazia muito bolo, levava pro serviço, gastava mesmo assim me preocupando em doar amor. Hoje eu falo, pera aí, eu posso doar amor, mas cada um pode contribuir, eu não posso, simplesmente eu saio doando amor, né. Eu dou amor, mas a pessoa me retribui ou contribui com dinheiro, a gente junta, entendeu? Não precisava doar o amor dessa forma. E hoje eu falo, não, não precisa ser dessa forma. Então assim eu faço as coisas, eu posso até cobrar um pouquinho menos, mas eu não deixo de cobrar. Porque a pessoa tem que valorizar o que eu estou fazendo, o meu tempo. Porque eu não estou sem fazer nada, é meu tempo. Eu poderia estar fazendo outra coisa, e eu estou dedicando meu tempo para você, para algo, para uma outra pessoa, então é bem isso, acho que é uma questão de valorizar. Então é o se valorizar e valorizar o outro como individuo também. Então eu acho que é bem isso, sabe.

Deborah: E se você pudesse falar para alguma mulher que está passando por alguma dificuldade, o que você falaria para ela?

Rosa Vermelha: Por mais que tudo seja difícil, não acreditar no que as pessoas falam. É não tornar verdade o que as pessoas falam. É ir lá no seu fundo, lá no seu interior e encontrar tudo o que você é. Sabe, a sua força, a sua dignidade, a sua honestidade. Tudo. A sua transparência, a sua verdade. Tudo, tudo. Não deixar que as pessoas falam “ah você é isso”, a sua beleza. Encontrar a sua beleza dentro. Não é porque… exemplo aqui tá? Não é porque você fala que eu sou feia que eu tenho que acreditar no que você está falando. Eu tenho que acreditar em mim, então eu tenho que ir lá no meu fundo e acreditar que a minha verdade ela sim é que prevalece. Então assim, é difícil as vezes para as mulheres, porque eu acho que no modo geral a mulher ela desde, ela foi ensinada a ser né de uma forma ou de outra, ela foi ensinada a ser submissa, ela foi ensinada a ser deixada, deixar a vontade dela de lado para fazer a vontade dos outros, eu acho que foi bem isso. Isso é muito antigo. E por mais que a gente não queira, a gente ainda traz algumas coisas dessa forma, então, é engraçado que eu até estava comentando com a minha sogra esse final de semana, eu estava falando de diversidade né, e aí eu percebi assim, ela fez um comentário, um comentário que deixava bem claro que ela não aceitava. Eu entendo o fato de não aceitar porque é uma geração de 70, quase 80 anos, é difícil para eles aceitarem, mas eu falei assim pra ela, você acredita que me dá uma alegria tão grande, mas tão grande, de saber quer as pessoas, que um homem quer virar uma mulher, ou que uma mulher quer virar um homem, e que eles podem fazer isso. E por mais que a sociedade tenha aquelas pessoas que não aceitam, mas o todo, a maior parte está aceitando, e ele pode fazer isso. Porque imagina o quanto é difícil, imagino o quanto é difícil para uma pessoa, é como se fosse uma pessoa casada. Quer se separar mas não se separa por que sabe que todo mundo vai falar. É a mesma coisa. Então imagina o quanto essa pessoa não sofreu por dentro, e o quanto ela não sofre, por saber que ainda nem todo mundo aceita ela. Então eu falei assim, eu fico tão feliz disso acontecer, de ver as pessoas seguindo o caminho da felicidade, do que faz ela ser realmente feliz. Eu falei, isso me deixa muito feliz. Ela parou, ficou olhando assim, aí eu comecei a contar as pessoas que eram, e que tinham se assumido, sabe, até na minha família mesmo. E eu falei assim, eu não vou deixar de amar essas pessoas pelo que elas são hoje. Porque lá dentro elas são a mesma pessoa, é só fora. Lá dentro ela é a mesma pessoa, mesma essência, mesmo tudo. Talvez até melhor hoje por conta de tudo o que aprendeu do que antes. Então eu falei assim, pra mim o amor vai continuar igual. Ai ela parou ficou olhando, e começou é faz sentido, é verdade. Mas eu sinto muito orgulho. Eu acho que é bem isso, as pessoas tem todo o direito de chegar o momento delas… por isso que essa reflexão não tem que ser feita… é a vida inteira, sabe? Por mínimo que seja, se a gente trabalha dentro de casa que aquilo começou a afetar o seu interior, é o momento de você refletir, e ver se aquilo vale a pena ou não. E se não valer a pena, independente do tempo, da idade, é hora de mudar, é hora de ser feliz.

Deborah: Se você pudesse dar um conselho para você mesma quando você era mais nova, qual seria?

Rosa Vermelha: O conselho que eu diria para mim é não deixe de fazer as coisas que você quer por conta dos outros.

Obrigada! :)