Mulheres que contas suas histórias - Cacto – utopiar

Mulheres que contas suas histórias - Cacto

Minha história não é tão facil. Eu não sofri violência física, mas sofri violência psicológica. Eu perdi minha mãe com 11 anos, e nunca aceitei muito bem essa situação. Pra fugir de uma situação em que eu tinha que cuidar de meus irmãos e um pai doente, eu me casei com 16 anos. Fiquei 20 anos casada e tive 3 filhos. No começo ele era um homem muito bom, um super pai, eu só fui saber quem ele era depois que eu me mudei com ele. Tudo mudou quando a minha pequena nasceu. A minha filha pequena tem olhos bem puxados. Eu tenho descendência indígena, então ela acabou puxando alguns destes traços. E ele, por algum motivo, rejeitou a minha filha. Isso me machucou demais.

Pra ele, eu não era mais uma pessoa. Eu era alguém que estava ali pra servir e cuidar dos filhos. Com o tempo eu me isolei, não saía mais da cama, não abria a janela. E ele falava que era frescura. Falava “Olha aí, seus filhos todos pra cuidar e você deitada”. Ele não aceitava minha situação. Ele não me ajudou, a única coisa que ele fez foi me rejeitar. Uma pessoa que passou 20 anos comigo não conseguia me ajudar em um momento desses. Ele dizia que eu estava maluca. Quem cuidava de mim era meu filho de 12 anos e quem cuidava da minha filha era ele também. Eu estava em depressão profunda e sofria alguns surtos.

No meu último surto, a família dele começou a xingar e humilhar a mim e minha filha. Nos meus surtos, todos me olhavam, todos me julgavam, mas ninguém soube me entender, eu precisava é de ajuda. O único a me estender a mão foi meu irmão, que cuidou de mim por 45 dias que eu não levantei da cama. Nisso, eu descobri que meu ex estava me traindo com uma pessoa mais nova, e por isso que me rejeitava. Ele chegou a falar pra mim “você nunca entendeu que eu sou muito bonito pra você”. Ele ligava pro meu irmão quando estava cuidando de mim e perguntava “e aí, ela tá dando trabalho?” e meu irmão respondeu “isso é uma doença. Depressão é uma doença, não é uma frescura, e você não soube entender ela”.

Depois dos 45 dias que eu fui cuidada, eu consegui levantar e ir cuidar dos meus filhos. A parte mais difícil de todas é essa, levantar da cama de manhã. Mas graças a Deus hoje eu consigo arranjar motivos pra sair da cama. Depois que ele foi embora, eu comecei a sorrir de novo e meus filhos também. Eu tô aqui com a utopiar faz um mês. Hoje, como era dia de oficina, foi um dia fácil pra eu levantar da cama. Aqui nós conversamos, nós rimos e converso com outras mulheres que também passaram por isso.

    Obrigada! :)