Sobre encontros e despedidas – utopiar

Sobre encontros e despedidas

Com certeza você já teve perdas importantes em sua vida. E aqui chamo de perda tudo aquilo que você teve (mesmo que no campo das ideias) e não tem mais.

Quando perdemos algo ou alguém há infinitas possibilidades para como isso vai nos abalar, mas hoje quero focar naquelas perdas que abalam mesmo, que parece que nosso chão foi embora, que ficamos flutuando em um mundo com menos sentido e menos graça do que o mundo que, aparentemente, tínhamos antes.

Em um momento desses, muitas coisas podem vir à nossa mente. Geralmente a primeira coisa que vem é uma vontade enorme de voltar no tempo ou de termos o poder de fazer com que aquilo (aquele) que perdemos volte. Acontece que esse tipo de pensamento, além de não nos ajudar a superar a perda, nos coloca um pouquinho mais fundo no buraco em que já nos encontramos.

Porém, olhar apenas para frente também é difícil. E não me parece exatamente saudável simplesmente ignorar o que aconteceu e focar apenas no futuro. O luto é um momento de reflexão, momento para pensar e sentir, compreender e elaborar aquilo que aconteceu.

Então, qual seria uma boa forma de lidar com essas perdas?

Gosto muito de pensar em uma ideia de um professor meu da faculdade, que é a seguinte:

Nossa vida é feita de encontros e despedidas. Todas as nossas relações são encontros e, sem nenhuma exceção, iremos nos despedir delas – seja se nossos caminhos se desencontram com o de pessoas queridas, seja em términos de relacionamentos, ou então quando alguém morre.

Despedidas vão doer. E vão doer com intensidade proporcional ao tamanho do encontro que tivemos com aquela pessoa. Encontros profundos precedem despedidas muito doloridas, invariavelmente.

Assim, quando você estiver sofrendo muito por uma perda, pense no tamanho que foi aquele encontro e como foi bom ele ter existido.

E, quando entendemos isso, também podemos escolher viver uma vida de grandes encontros e, possivelmente, grandes sofrimentos em nossas perdas, ou uma vida com menos sofrimento nas despedidas, mas também com encontros mais rasos, menos profundos. 

O que você prefere? Aqui a questão é individual, íntima e sua resposta pode depender de inúmeros fatores particulares seus. Não existe resposta certa.

Mas, em um momento tão delicado quanto o sofrimento de uma perda, tenho certeza que pensar que ali aconteceu um encontro profundo e verdadeiro traz uma sensação de paz que, com o tempo, vai se transformando em tranquilidade.

Saber cuidar de si também é muito importante em momentos de perdas. Entender que você precisa ser completa sozinha, que você precisa estar conectada consigo mesmo para continuar sua caminhada da melhor forma possível. Porque no fundo, você já sabe, nascemos sozinhas e morremos sozinhas, nossos encontros devem nos preencher, nos nutrir, mas jamais servir para nos completar. 

Pense nisso, se complete, cuide bem de você mesma. A minha recomendação é que você não deixe de sonhar e de se aprofundar em seus relacionamentos. Não tenha medo de perder as pessoas, foque no tamanho do encontro que você deseja ter com elas e não nas despedidas. Porque elas irão acontecer de qualquer jeito e, no final das contas, estaremos sempre seguindo nossos caminhos sozinhas, mas com muitas histórias e lembranças boas em nossa bagagem.


“Saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio” (Caetano Veloso).

 

A Flavia é psicóloga clínica, apaixonada por literatura, música, viagens e novas culturas. Acredita nas conexões profundas, tanto nas relações quanto internas. Sua busca profissional vai para além do consultório - tentando sempre proporcionar novas compreensões através de seus textos e reflexões.  

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